Valdez, Capitão Sem Pátria. Uma proposta artística provocadora para integrar a programação cultural de 2026.
Valdez, Capitão Sem Pátria é um espetáculo em forma de monólogo, com tom tragicômico e distópico, que levanta questões urgentes sobre o poder, a identidade e o lugar do indivíduo num sistema em colapso.
Com circulação já iniciada em Portugal e no Brasil, tem vindo a integrar programação em espaços culturais com vocação contemporânea, gerando acolhimento crítico e envolvimento do público.
| Em colaboração com Instantâneos e Show Doutor.
Residência artística disponível para auditórios municipais, câmaras e equipamentos culturais. Inclui workshops, oficinas intergeracionais e ações de envolvimento local.
“Valdez, Capitão sem Pátria” é apresentado como proposta completa para programação cultural em 2026,
adaptável a diversos contextos e tipologias de sala.
“Uma peça provocadora e necessária sobre justiça, algoritmos e humanidade.”
– Gerador
“Monólogo de intervenção social sobe ao palco do Forno – Espaço Cultural.”
-Sintra Notícias
“Teatro contemporâneo que levanta questões urgentes sobre o futuro das sociedades.”
–e-Cultura.pt
– Duração: 60 minutos
– Público-alvo: Maiores de 16 anos
– Género: Tragicomédia
– Equipa: 4 pessoas
– Espaço: Sala interior escura com área mínima de 8×6 metros (adaptável)
– Tempo de montagem: 8 horas
– Necessidades: Acompanhamento técnico de luz e som da casa para montagem.
– Ricardo Soares 93 315 65 90 ricardosoares@musgo.org.pt
– Nuno Fradique 93 283 71 74 nmfradique@gmail.com
– Pedro Carranquinha 91 371 03 15 pedrocarranquinha@musgo.org.pt
2029.
Guerra na Europa. Guerra civil nos Estados Unidos. Uma onda autoritária sem precedentes varre o mundo. A expansão económica chinesa prossegue a todo o vapor. Portugal e Espanha fecham-se em ideais ultranacionalistas unindo esforços para as tarefas securitárias e repressivas. Valdez, um português comum, distante das realidades globais, preso no seu quotidiano e indiferente aos destinos do país, vê-se convocado para uma guerra que não compreende. No campo de batalha e incapaz de lidar com os horrores do conflito, arranja forma de fugir.
Fabricando histórias de bravura e justificações para a sua deserção, tenta encontrar refúgio num Canadá sobrelotado que trata de o deportar para o Sudão, de onde é enviado de volta para Portugal. Acusado de deserção e traição à pátria, Valdez apresenta-se no “Teatro de Operações
Judiciais”, tribunal montado para o efeito nos teatros do país. Enfrentando a pena de morte, tem apenas uma hora para argumentar e montar a sua defesa. O júri é composto pela audiência. A decisão cabe ao algoritmo criado para o efeito. Poderá ele salvar-se? O espetáculo, em forma de monólogo, num tom trágico-cómico ácido, lida com a fragilidade individual perante a máquina burocrática e cega de um sistema assente em algoritmos “infalíveis”. Apontando para uma espécie de distopia apocalíptica, que retira identidade às pessoas, Valdez, que nunca quis participar nos destinos do país, vê-se a braços com um país que já não reconhece. O espetáculo questiona o poder do Estado sobre o indivíduo, a fragilidade da identidade em tempos de guerra e a ironia de um homem simples que tenta sobreviver num sistema complexo que o vê como traidor.
Ficha Artística e Técnica
Texto: Cortes Galvão | Direção Artística: Ricardo Soares | Interpretação: Nuno Fradique e
Ricardo Soares | Direção de Atores: Rute Lizardo | Paisagem Sonora: Bruno Oliveira |
Música: Rodrigo Lameiras | Cenografia, Figurinos e Adereços: Emanuel Simão | Direção
Técnica: Fábio Ventura (Show Doutor) | Desenho de Luz: Miguel Ferreira e Nicolas
Manfredini (Show Doutor) | Operação Técnica: Nikolas Gomes (Show Doutor) | Direção de
Produção: Ricardo Soares | Coordenador de Produção: Pedro Carranquinha | Produção
Executiva e Assessoria de Imprensa: Joana Rodrigues | Design Gráfico: Marco Graça |
Videografia: Ricardo Reis | Fotografia: Pedro Francisco | Coprodução: MUSGO Produção
Cultural; INSTANTÂNEOS, Teatro de Improviso e Show Doutor
Fazendo uso de um expediente cenográfico simples, mas eficaz, o espetáculo apresenta-se como um monólogo com dramaturgia criada em coletivo através de improvisações temáticas. O espetáculo flutua entre momentos de pura comédia e fases introspetivas e sombrias. Pode dizer-se que o espetáculo, não deixando de interpelar o público, não usa um recorte panfletário ou moralista, fazendo sim essa interpelação de forma indireta através de um enviesamento do olhar crítico. Não será, por isso, difícil que o público se reconheça nos quadros propostos, todavia também não será de ânimo leve que os assume.
Ancorados em 2024 e por dentro do que a história nos vai propondo, aventurámo-nos a imaginar um futuro próximo, uma espécie de distopia com uma guerra em curso na Europa. Propomos também uma reconfiguração das forças e geopolítica mundiais e, consequentemente, mas não menos importante, um fluxo migratório de refugiados bastante diferente do que conhecemos atualmente. Valdez retrata um português típico, inspirado no “desenho” do ensaísta e filósofo José Gil em
“Portugal Hoje, O Medo de Existir”. Apanhado na curva da história sem grande culpa pela marcha dos acontecimentos, Valdez é a metáfora de um certo atavismo português, talvez derivado de uma letargia própria de um país que ainda não auditou e fechou a pasta da ditadura vivida até 1974. Valdez é também, de certa forma, um Édipo, como o de Colono, que, errando pelos países e lugares, busca um pouso para o que resta da sua vida. É,
portanto, um desterrado, um apátrida, um fugitivo ou uma inexistência. Temos assim um exercício, em tom de comédia ácida, ou uma tragicomédia que propõe uma leitura de Portugal e dos portugueses na sua relação com os acontecimentos mundiais. Valdez luta pela vida enquanto aponta ao mundo a razão da sua condição e debilidade. Em forma de monólogo, no palco temos um ator que interpreta o Capitão Valdez. Temos também um dispositivo cénico e sonoro que nos transporta aos estados de alma do nosso protagonista. Este Capitão discorre sobre vários episódios da sua vida, passando por memórias de infância e pelas recentes fugas de país em país. Uma comédia “desajeitada e não pretendida”, surpreende ao revelar as idiossincrasias portuguesas virando-as do avesso.
É uma comédia, sim, mas acaba mal.
No contexto do totalitarismo, Arendt descreve os apátridas como os mais vulneráveis de todos os grupos. Desprovidos de cidadania, não têm proteção jurídica nem direitos garantidos, tornando-se, na prática, invisíveis perante a lei. Arendt observa que a supressão da lei, ao invés de garantir a aplicação universal de direitos humanos, expõe os apátridas a uma situação de completa vulnerabilidade. Sem um estado que os reconheça, perdem o direito a ter direitos.
Para Arendt, essa condição não é meramente uma questão de exclusão social, mas uma falha fundamental no sistema internacional de estados-nação. A cidadania, nesse sistema, é a condição sine qua non para a existência de direitos. Sem cidadania, não há um “lugar” legal para os indivíduos, e a sua existência torna-se um problema não apenas político, mas ontológico.
Se as tendências totalitárias continuarem a crescer na Europa e América, poderemos ver um cenário em que os próprios cidadãos dessas regiões busquem refúgio noutras partes do mundo. Esta inversão dos fluxos migratórios traz à tona uma ironia amarga: os mesmos países que hoje rejeitam refugiados poderiam enfrentar recusas semelhantes. Imagine-se, por exemplo, países africanos e asiáticos negando entrada a europeus fugidos de conflitos,
com base na memória das políticas restritivas que enfrentaram ao tentar entrar na Europa. Essa recusa hipotética de países africanos e asiáticos em aceitar refugiados europeus pode ser vista como uma “reparação histórica”. Países que atualmente sofrem com crises humanitárias frequentemente enfrentam barreiras significativas ao tentar buscar refúgio na Europa. O tratamento frequentemente -> muitas vezes inóspito e desumanizante que muitos refugiados enfrentam nas fronteiras europeias e norte-americanas pode resultar numa resposta de “olho por olho, dente por dente” quando os papéis são invertidos.